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terça-feira, 22 de março de 2016

AUDIOPOEMA #010: “Musa, sinceramente”, José Miguel Silva



Musa, sinceramente, vai chatear o Camões.
Que podem os poetas, diz-me, contra marketeers,
aguados humoristas e outros promotores
da realidade? Eu sei que não identificas real
com verdadeiro, nem sequer com existente,
mas que valor pode ter uma metáfora sem preço,
por brilhante que seja, neste mundo de gritos,
de sementes apagadas em lameiros de cimento?
Tu não vês o telejornal, Musa? Nunca ouviste
falar da impermeabilização dos solos na cidade
de Deus, do entupimento das artérias cerebrais?
Pensas que estás no século XIX? Mais, julgas-te
capaz de competir com traficantes de desejos,
decibéis e abraços? És capaz de fazer rir um
desempregado, de excitar um espírito impotente?
Consegues marcar golos «geniais» como o Ricardo
Quaresma, proteger do frio as andorinhas,
transportar as crianças à escola? Se achas que sim,
faz-te à onda do mercado, Musa, e boa sorte.
Mas não contes comigo pra te levar à praia.
Sabes perfeitamente que detesto areia, sol
na testa e mariolas de calção. Vá, não me maces.
Pela parte que me toca, ficamos por aqui.


poema: “Musa, sinceramente”
autor: José Miguel Silva (1969-)
obra: Ladrador, Averno, 2012

voz: Ana Celeste Ferreira
ilustração inspirada no poema: Ricardo Campus
captação e edição sonora: Ricardo Caló

domingo, 15 de novembro de 2015

AUDIOPOEMA #009: “O que me vale”, Manuel António Pina


O que me vale

O que me vale aos fins de semana
é o teu amor provinciano e bom
para ele compro bombons
para ele compro bananas
para o teu amor teu amon
tu tankamon meu amor
para o teu amor tu te flamas
tu te frutti tu te inflamas
oh o teu amor não tem com
plicações viva aragon
morram as repartições


poema: “O que me vale”
autor: Manuel António Pina (1943-2012)
obra: Poesia Reunida, Assírio & Alvim, 2001, pág. 46

voz: Ana Celeste Ferreira
fotografia: Sara Moutinho
captação e edição sonora: Ricardo Caló


domingo, 1 de novembro de 2015

AUDIOPOEMA #008: “Rifão Quotidiano”, Mário Henrique Leiria



Rifão Quotidiano

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

poema: “Rifão Quotidiano”
autor: Mário-Henrique Leiria (1923-1980)
obra: Novos Contos do Gin, Editorial Estampa, 1974

voz: Ana Celeste Ferreira
fotografia: Pat
captação e edição sonora: Ricardo Caló

terça-feira, 1 de setembro de 2015

AUDIOPOEMA #007: “Dióspiro”, Daniel Maia-Pinto Rodrigues


depois do almoço
quando arrastamos a cadeira
um pouco para trás
uma sonolência morna
entrelaçada de luz
entra pelas janelas
ludibria as cortinas
e difusa poisa no vinho

é nessa altura que dizemos:
vou comer este dióspiro
antes que apodreça

poema: “Dióspiro”
autor: Daniel Maia-Pinto Rodrigues (1960-)
obra: Conhecedor de Ventos
Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, 1987

voz: Ana Celeste Ferreira
fotografia: Antonieta Monteiro
captação e edição sonora: Ricardo Caló

quarta-feira, 1 de julho de 2015

AUDIOPOEMA #006: “Um Dentista”, Gonçalo M. Tavares



Um dentista

Conheci num poema de Auden
um dentista reformado que se pôs a pintar montanhas.
Pintou trinta e três montanhas como os pintores de parede
pintam trinta e três paredes. Depois parou, limpou o suor da testa,
pediu um copo de vinho e uma mulher, e despiu-se, embriagado,
fazendo sexo como um dentista
e não como um pintor de montanhas.
E se pensas que uma e outra forma de tocar numa mulher
são idênticas, então deves ler mais poesia.


poema: “Um Dentista”
autor: Gonçalo M. Tavares (1970-)
obra: 1, Relógio D’Água, 2004

voz: Ana Celeste Ferreira
fotografia: Luis Tobias
modelo: Joana de Viana
captação e edição sonora: Ricardo Caló

segunda-feira, 1 de junho de 2015

AUDIOPOEMA #005: “O Atalante – Jean Vigo (1934)”, José Miguel Silva

No dia em que fomos ver O Atalante
eu levava, por coincidência, um cubo de gelo
no bolso do casaco. Lembro-me de tremer
um pouco. Até aí, tudo bem. Pior,
foi quando te ouvi pronunciar, distintamente:
quem procura o seu amor debaixo de água,
acaba constipado.
Na altura, ri-me: pensei que falavas do filme.
Sou tão estúpido.


poema: “O Atalante – Jean Vigo (1934)”
autor: José Miguel Silva (1969-)
obra: Movimentos no Escuro, Relógio d´Água, 2006, pág. 14

voz: Ana Celeste Ferreira
fotografia: Renato Roque
captação e edição sonora: Ricardo Caló

sexta-feira, 15 de maio de 2015

AUDIOPOEMA #004: “Canção Alentejana”, João Habitualmente




Canção Alentejana

A menina estava à janela
com o seu cabelo ao vento

Pus-me nela
mas nem mesmo da vidraça
da minha própria janela
lhe podia ver a graça espelhada no relento

E nem mesmo a vi a ela

Não me vou daqui embora
(nem que chovam canivetes)
sem levar uma prenda tua
sem levar a roupa dela

Pode ser que seja bela
e enquanto estiver nua
hei-de à noite pôr-me nela
na minha pobre janela
com o meu cabelo à lua.


poema: “Canção Aletejana”
autor: João Habitualmente (1961-)
obra: Os Animais Antigos, Objecto Cardíaco, 2006

voz: Ana Celeste Ferreira
fotografia: Ernesto Ferreira
captação e edição sonora: Ricardo Caló

sexta-feira, 1 de maio de 2015

AUDIOPOEMA #003: “Na Biblioteca”, Manuel António Pina



Na Biblioteca

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.


poema: “Na Biblioteca”
autor: Manuel António Pina (1943-2012)
obra: Poesia Reunida, Assírio & Alvim, 2001, pág. 181

voz: Ana Celeste Ferreira
fotografia: Luis Mateus - Lounge Fotografia
captação e edição sonora: Ricardo Caló



quarta-feira, 15 de abril de 2015

AUDIOPOEMA #001: “Soneto”, Joaquim Castro Caldas




Soneto (à minha mulher-a-dias que tem a mania que é analfabeta 
mas sabe mais coisas que o primeiro-ministro)

ai maria do alívio se tu soubesses
as pedras que estes passos trazem
quantas cidades aqui me disseram
que as pessoas como tu é que eram

ai maria do alívio se tu imaginasses
as praças que eu enchi de coragem
sem a ajuda de ninguém só de deus
que esse enfim seja quem for lá está

que há uma coisa cá dentro sem nome
que mexe connosco sem dar por isso
e eu não sei se é amor se é enguiço

de outra coisa te prometo sofro muito
de uma doença incurável chamada vida
cuja única cura é um dia ir-me embora

Poema: “Soneto”
Autor: Joaquim Castro Caldas (1956-2008)
Obra: inédito

Voz: Ana Celeste Ferreira
Fotografia: Antonieta Monteiro
Captação e Edição Sonora: Ricardo Caló

AUDIOPOEMA #002: “Poema pouco original do Medo”, Alexandre O’Neill


O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
sim,
a ratos

Poema: “Poema pouco original do Medo”
Autor: Alexandre O’Neill (1924-1986)
Obra: Abandono Vigiado, Guimarães Editores, 1960

Voz: Ana Celeste Ferreira
Fotografia: Ricardo Caló
Captação e Edição Sonora: Ricardo Caló